Capoeiristas manifestam apoio a Guerreiro após manifestações de que "a capoeira é do diabo".


Em 2014, a capoeira foi reconhecida pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial da humanidade. Apesar disso, essa luta genuinamente brasileira, herdada dos negros escravizados ainda prossegue sendo tratada com preconceito em diversos espaços dentro do território brasileiro.


Circula nas redes sociais uma nota de repúdio assinada pelo Professor Guerreiro, da Escola Ideal Capoeira, por conta de "manifestações de intolerância, ódio e preconceito contra a cultura afro-brasileira", desta vez, proferidas pelas próprias crianças a quem o mestre dá aula.


O fato se deu no Residencial Novo São José, em João Pessoa, Paraíba, e, obviamente, a nota de repúdio não é dirigida às crianças, mas a quem lhes ensinou que a luta do povo negro seria algo "demoníaco" - e não a violência terrível a que esta população foi submetida com a escravidão e ausência de políticas reparatórias efetivas, no Brasil.


O contramestre Escurinho, da Associação Cultural de Capoeira Badauê, registrou sua solidariedade ao professor: "Sou solidário sim ao Guerreiro. O conheço de perto. Índole inquestionável, diante de suas ações na educação e cultura. São décadas de dedicação à educação, como arte-educador. Ele tem meu respeito e soma no que precisar. Nesse caso, já passei inúmeras vezes por essas situações".

O capoeira César Santos também deixou um depoimento: "Infelizmente os capoeiras ainda são vítimas, cotidianamente, de atos discriminatórios. A capoeira é em sua essência um ato de resistência a esses preconceitos, é uma forma de viver que tem princípios e práticas ancestrais, não é só um esporte, uma dança, um jogo. Capoeira é resistência, por isso desejo aos meus irmãos e irmãs que tenham força para lutar contra toda forma de desrespeito e intolerância aos nosso valores".


O Mestre Naldinho, da Capoeira Angola Comunidade também declarou solidariedade ao capoeira: "Compartilho meu apoio com o professor Guerreiro no que diz respeito a essa intolerância religiosa, preconceito e racismo sofrido pelo mesmo por ser um divulgador dessa magnífica arte CAPOEIRA no exercício de sua função de educador popular e cultural".


Por sua vez, Isaac Santos assim declarou no blog 'Mostrando Verdades Politicas': "Neopentecostais perseguindo professor de capoeira e proibindo as crianças de treinar essa arte afirmando ser do demônio. Uma arte que evita que vulneráveis entrem nas Drogas e no Crime".


A Roda de Capoeira - inscrita pelo IPHAN no Livro de Registro das Formas de Expressão, em 2008 - é um elemento estruturante de uma manifestação cultural, espaço e tempo, onde se expressam simultaneamente o canto, o toque dos instrumentos, a dança, os golpes, o jogo, a brincadeira, os símbolos e rituais de herança africana - notadamente banto - recriados no Brasil. Profundamente ritualizada, a roda de capoeira congrega cantigas e movimentos que expressam uma visão de mundo, uma hierarquia e um código de ética que são compartilhados pelo grupo. Na roda de capoeira se batizam os iniciantes, se formam e se consagram os grandes mestres, se transmitem e se reiteram práticas e valores afro-brasileiros.


A capoeira é uma manifestação cultural presente hoje em todo o território brasileiro e em mais de 150 países, com variações regionais e locais criadas a partir de suas “modalidades” mais conhecidas: as chamadas “capoeira angola” e “capoeira regional”.


Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade - A 9ª Sessão do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda aprovou, em novembro de 2014, em Paris, a Roda de Capoeira, um dos símbolos do Brasil mais reconhecidos internacionalmente, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O reconhecimento da Roda de Capoeira, pela Unesco, é uma conquista muito importante para a cultura brasileira e expressa a história de resistência negra no Brasil, durante e após a escravidão. Originada no século XVII, em pleno período escravista, desenvolveu-se como forma de sociabilidade e solidariedade entre os africanos escravizados, estratégia para lidarem com o controle e a violência. Hoje, é um dos maiores símbolos da identidade brasileira e está presente em todo território nacional, além de praticada em mais de 160 países, em todos os continentes.


Leia a nota, na íntegra:

"NOTA DE REPÚDIO


Como muitos sabem, há anos sou educador social, trabalhando com a capoeira.


Nessa caminhada, por meio dessa ferramenta, já tive a oportunidade de contribuir para transformar vidas, resgatando autoestima, descobrindo talentos, desenvolvendo habilidades, promovendo cidadania e dignidade a tantas crianças, adolescentes, jovens e adultos.


Pessoas carentes que, muitas vezes, não tinham nenhuma expectativa em suas vidas e para quem a capoeira demarcou o início de um novo tempo, feito de sonhos e também de realizações.


Eu, inclusive, também, um dia fui uma dessas pessoas. Como criança pobre de periferia, vivi muitos percalços ainda muito cedo e estes poderiam ter determinado o meu destino, tolhido minhas potencialidades e talvez, até, me levado ao crime e à morte, como aconteceu com tantos amigos de infância.


Foi pelas mãos de educadores que me apresentaram a capoeira, que conheci um outro universo, lúdico, artístico e esportivo, de valor cultural inestimável.


Foi por esse motivo, que desde que me formei como professor de capoeira, que assumi o compromisso ético, político, humano e cidadão de contribuir para que outras pessoas tenham a oportunidade que eu tive, de conhecer a capoeira e desfrutar deste rico patrimônio cultural.


A batalha é grande e na maioria das vezes, trabalho sem apoio de nenhuma fonte, o que não me desanima, dedico o meu tempo, invisto recurso do meu próprio bolso e dou o melhor de mim, pois a maior recompensa é ver as vidas sendo transformadas.


Mas hoje, enfrentei um desafio desanimador. Numa comunidade na qual estou desenvolvendo o meu atual projeto, presenciei algumas crianças sendo manipuladas por pessoas ligadas à segmentos religiosos neopentecostais, as quais reproduziram em suas falas manifestações de intolerância, ódio e preconceito contra a cultura afro-brasileira, em especial a capoeira..


Crianças que antes tinham começado a praticar a capoeira e que começavam a se encantar com a arte, agora se afastavam de mim, não me olhavam nos olhos e ao ser indagadas sobre tal atitude, respondiam olhando nos meus olhos que não iam mais participar da capoeira, que a capoeira é do diabo e que eu sou um enviado dele.


Não foi fácil.


Sei que as crianças estavam reproduzindo o que ouviram, mas não posso aceitar que pessoas adultas, intolerantes, preconceituosas, ignorantes e estúpidas, se utilizem do nome de Deus para julgar, mentir e manipular crianças inocentes, desrespeitando não apenas a minha trajetória pessoal, mas toda a contribuição da capoeira enquanto manifestação cultural, nascida na luta contra uma das maiores barbáries que a humanidade já cometeu, a escravidão de outros seres humanos.


Este texto é um desabafo, mas não é só. É um repúdio, mas não apenas isso.


É um alerta para os próprios capoeiristas sobre a necessidade de tomarmos uma posição intransigente na defesa da nossa arte, de não deixar que sejamos desrespeitados dessa forma, por estes segmentos religiosos, seitas e "igrejas" que se valem do nome de Deus para perseguir e desqualificar a capoeira.


A capoeira não pode ser perseguida e difamada dessa forma. Nós sempre precisamos dela, agora ela precisa de nós. Temos que levantar nossa cabeça, expor com orgulho a nossa arte.


Não nos calaremos!

Vai ter capoeira, sim! ✊🏿✊🏿"

Principais Posts
Posts Recentes
Arquivos
Procurar por Tags
Nenhum tag.
Redes sociais
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square