Nossa filosofia

 

Como funciona o projeto Museu do Patrimônio Vivo da Grande João Pessoa.

O conceito de patrimônio cultural imaterial refere-se aos saberes populares de uma determinada comunidade que compartilha um mesmo sistema de linguagem e expressão, transmitido através da oralidade, de forma a se manter vivo, transformando-se através das gerações. Apesar de seu caráter mutável, os bens imateriais têm uma característica forte, que lhes é inerente por toda vida: seu papel na identidade e na coesão de um determinado grupo.

 

Através dessas festas, brincadeiras, celebrações, ofícios, lugares e saberes, um laço invisível se forma, entrelaçando indivíduos, fortalecendo relações, rememorando histórias. Levando em conta as especificidades dos bens imateriais, sua dinamicidade e sua riqueza dentro da capital paraibana, o Coletivo Jaraguá, com financiamento do Fundo Municipal de Cultura (FMC), está construindo um espaço de pesquisa, discussão, divulgação e formação que visa promover a salvaguarda desse patrimônio tão singular, a partir da formação de Jovens Agentes Culturais, moradores de bairros tradicionais da cidade: o Museu do Patrimônio Vivo de João Pessoa.

 

Mas aí você deve estar a se perguntar: um museu para zelar por bens que compõem um patrimônio que é imaterial e dinâmico? Como é isso?

 

 

Em um primeiro momento pode parecer contraditório, sobretudo se pensarmos no formato mais comumente conhecido de museu, que se relaciona com a definição da 20ª Assembleia Geral de Barcelona, como uma “instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e de seu entorno, para educação e deleite da sociedade” (Fonte: IBRAM, grifo nosso).

 

 

A partir da demanda que se apresenta à medida que se amplia a noção de patrimônio cultural, de forma a abranger também os saberes e fazeres populares, sobretudo os próprios de grupos sociais esquecidos pela concepção até então dominante de patrimônio, diversos profissionais da área de patrimônio e museus tem se engajado a contribuir na construção de novos rumos, que sirvam para a identificação e salvaguarda dos bens imateriais.

 

 

 

Nesse ponto, o projeto do Museu do Patrimônio Vivo de João Pessoa se soma à construção de novas bases para o próprio entendimento de museu. Buscando atender às especificidades dos bens culturais imateriais, o projeto busca expandir a noção consolidada de museu, passando a entendê-lo como algo mais do que um modo de representação estática dos bens ou uma simples forma de valorização e divulgação de patrimônios, enquanto “testemunhos materiais”. Ao atribuir maior enfoque aos significados, processos e práticas culturais, parte-se da compreensão de que os objetos em si não são mais importantes do que os saberes e as pessoas envolvidas na transmissão e aplicação desses conhecimentos.

O acervo do nosso museu diferencia-se, então, por ser composto por pessoas, lugares, narrativas, calendários festivos e expressões culturais de um modo geral. Sua locação são os espaços representativos das atividades culturais, podendo ser a casa dos mestres, lugares de trabalho, das festas, das celebrações e das brincadeiras populares. O Museu se constitui, assim, como um mapa das expressões culturais da cidade de João Pessoa, ilustrando uma rede de pessoas, lugares e objetos de grande referência cultural para as localidades envolvidas.

 

O Museu Patrimônio Vivo da Grande João Pessoa parte do pressuposto de que a preservação e valorização de um bem cultural só faz sentido se sua importância é reconhecida pela comunidade da qual faz parte. Dessa forma, a pesquisa de identificação dos bens existentes em cada bairro, assim como seu aprofundamento foram realizados por Agentes Culturais Comunitários – jovens entre 15 e 29 anos, residentes das comunidades participantes do trabalho –, os quais, a partir de idas a campo e entrevistas, puderam visitar os mestres e atores culturais, com o fim de inventariar os bens imateriais de suas localidades.

A metodologia utilizada tomou como base as orientações de pesquisa do Inventário Nacional das Referências Culturais – INRC/IPHAN, que indica que a delimitação espacial a ser inventariada se configura em um sítio, que será, de acordo com sua dimensão, subdividido em localidades. A primeira edição do Museu do Patrimônio Vivo apresentou como sítio a área municipal da capital paraibana, o qual é subdividido em seis localidades correspondentes às comunidades participantes dessa fase do projeto: Bairro dos Novais, Bairro do Rangel, Bairro do Roger, Mandacaru, Paratibe e Vale do Gramame.

 

Tendo isso em vista, mesmo que a seleção de tais jovens tenha se dado de forma participativa, através de consulta a lideranças culturais locais reconhecidas pelas comunidades, pôde-se observar que as escolhas feitas pelos agentes quanto aos bens a serem inventariados, muitas vezes foram marcadas por relações pessoais, seja de parentesco ou de afinidade - o que é plenamente legítimo.

 

No entanto, é importante lembrar que o Museu do Patrimônio Vivo não se limita aos bens e comunidades atendidos por essas primeiras fases do projeto, sendo este apenas um começo para que a iniciativa se amplie, a partir da constante incorporação de novas comunidades e expressões culturais, buscando se constituir como um instrumento dinâmico, representativo da cartografia cultural de João Pessoa.

 

Os textos aqui presentes foram redigidos pela equipe técnica do Projeto, tendo como base as fichas elaboradas pelos agentes culturais, que também participaram de forma ativa deste texto final. Durante esse processo de escrita, várias questões surgiram com relação à forma, à sistematização e ao conteúdo da pesquisa. As escolhas tomadas visaram preservar ao máximo o trabalho desenvolvido pelos agentes, respeitando suas escolhas e suas pesquisas.

 

Nesse primeiro momento, o Museu deu ênfase à elaboração de uma visão ampla e geral das localidades beneficiadas. Dessa forma, os textos estão divididos por comunidades, sendo que um mesmo bem pode ser identificado e inventariado diversas vezes.

Já a segunda edição do projeto, obteve financiamento do Fundo Estadual de Incentivo à Cultura e realizou-se a ampliação do sítio para a Grande João Pessoa, alcançando com isso as cidades vizinhas de Santa Rita (Centro e Tibiri), Lucena (Centro e Carrapeta), Cabedelo (Centro e Monte Castelo) e Conde (Gurugi e Ipiranga), para além das comunidades pessoenses do Porto do Capim, Penha e do Alto do Mateus.

 

O inventário realizado pelos jovens Agentes Culturais Comunitários, ainda de acordo com as orientações metodológicas do INRC, propôs à realização de um levantamento preliminar, procurando mapear o máximo de bens imateriais presentes nas comunidades participantes, além de uma caracterização da localidade. Em seguida, cada dupla de agentes indicou os bens de sua comunidade a serem estudados mais aprofundadamente, aos quais foram aplicadas as Fichas de Referências Culturais, visando uma investigação mais rica e detalhada acerca das especificidades desses patrimônios.

 

 

Este site é um dos produtos da primeira fase do projeto, apresentando a pesquisa realizada pelos doze agentes culturais das seis comunidades beneficiadas ao longo de oito meses. Apesar de ter como base a metodologia do INRC, a pesquisa desenvolvida pelos jovens não se propõe a ser um estudo exaustivo da cultura popular e do patrimônio imaterial dessas localidades, tampouco é um relatório imparcial de identificação desses bens. A presente pesquisa é um registro das percepções e vivências da cultura que esses jovens desenvolveram dentro de suas comunidades.

 

O leitor poderá então encontrar dois ou mais textos sobre o coco de roda, por exemplo; no entanto, esses textos serão diferentes, mesmo que convergentes no que diz respeito à natureza do bem. Isso se deve ao fato de que os grupos pesquisados, os pesquisadores e a localidade onde a pesquisa foi realizada se diferem. O catálogo foi então elaborado buscando não repetir exaustivamente as mesmas informações, mas sempre guardando o essencial para que o bem seja entendido dentro do seu contexto.

 

 

O site do Museu Patrimônio Vivo de João Pessoa, para além de um produto, se constitui como um instrumento de divulgação, de conhecimento e de reconhecimento do trabalho dos jovens Agentes Culturais Comunitários, assim como de todos os grupos e comunidades participantes dessa primeira fase do projeto. É nosso primeiro rascunho desse desenho complexo e colorido que é a cultura popular paraibana.

 

 

Laetitia Valadares Jourdan

Marcela de Oliveira Muccillo

Pablo Honorato Nascimento